Biografia

O Servo de Deus

Dom Frei Vital Maria Gonçalves de Oliveira Júnior

Capuchinho – Bispo de Olinda

Nascimento/ Família

Dom Frei Vital nasceu no Sítio Jaqueira do Engenho Aurora, atual município de Pedras de Fogo-PB (na época território do Estado de Pernambuco) aos 27 de novembro de 1844.

Seus pais chamavam-se Antônio Gonçalves de Oliveira e Antônia Albina de Albuquerque. No dia 02 de janeiro de 1846 foi batizado pelo Padre Francisco Santana, na capela do Engenho Bonito, em Goiana-PE, recebendo o nome de Antônio Gonçalves de Oliveira Júnior. Ele foi o primeiro de seis irmãos: Belarmino, Maria Amélia, José, Joaquina e Cândido.

Estudos/ Vocação/ Seminário/ Capuchinho/ Ordens

Seus primeiros estudos foram feitos sob a direção do padre Antônio Generoso Bandeira, na escola pública de Itambé. Era um menino inteligente e de caráter decidido. Seu pai, então, o colocou para estudar no Colégio do Benfica, em Recife-PE, destacando-se pelo espírito de docilidade, assiduidade, aplicação e interesse e interesse pelas aulas, e também pela boa índole e pela seriedade do seu caráter, como atestou um dos seus professores, o senhor Joaquim dos Passos.

Quando estudante no Colégio do Benfica, a mãe o recomendou aos capuchinhos da Penha, onde ele se confessava e participava das missas. Ali recobrava novas forças e pedia luzes à Nossa Senhora para conhecer o estado de vida a que Nosso Senhor o destinava. Iter para tutum – Prepara (me) um caminho seguro), será depois seu emblema episcopal. Ele queria ser capuchinho, mas naquele momento histórico, no Brasil, os missionários não podiam receber vocações nativas e aconselharam-no a entrar no Seminário de Olinda.

Era 16 de dezembro de 1860, quando Dom João da Purificação Marques Perdigão, bispo de Olinda, deu-lhe a veste talar e conferiu-lhe a tonsura na capela do seu Palácio da Soledade. E aos 02 de fevereiro de 1861 ingressou no Seminário de Olinda. No ano seguinte, a 1º de outubro de 1862, foi estudar em Paris, na França, no Seminário de São Sulpício. Terminado o curso filosófico e tendo sido acompanhado pelos capuchinhos franceses, recolheu-se ao noviciado deles em Versalhes, no dia 16 de julho de 1863. Iniciou o “ano da provação” (noviciado) no dia 15 de agosto desse mesmo ano, quando recebeu o hábito de São Francisco e o nome religioso de Frei Vital Maria de Pernambuco. Aos 19 de outubro de 1864 emitiu a Profissão Temporária na Ordem Capuchinha, prosseguindo os estudos no Convento de Perpignan. Em carta ao amigo Padre Bentes sobre sua vida entre os capuchinhos, escreveu: Ah! Meu caro amigo, a minha linguagem é insuficiente para lhe manifestar os transportes de alegria, de júbilo em que vivo. Oh! Não tenho tempo para dizer-lhe alguma coisa das venturas que minha alma goza aqui nesta santa casa do Senhor; só lhe digo que não me lembro mais do mundo, estou onde minha alma, há tempo, desejava viver. Ah! Estou no Paraíso.

Em 08 de julho de 1866, recebeu as Ordens Menores no Convento capuchinho de Tolosa, França. A 06 de junho de 1868 recebeu o diaconato e aos 02 de agosto daquele mesmo ano foi ordenado sacerdote, na igreja da Imaculada Conceição de Matabieau, por D. Desprez, então arcebispo de Tolosa.

Em outubro de 1868, Frei Vital voltou ao Brasil, visitando o convento de Nossa Senhora da Penha, em Recife-PE e, em seguida, os parentes em Pedras de Fogo (Itambé), demorando-se ali até fins de janeiro de 1869. Ele estava designado para ensinar no Seminário de São Paulo-SP, para onde viajou no dia 14 de fevereiro, passando antes por Maceió-AL e Rio de Janeiro-RJ, chegando no dia 03 de abril a São Paulo. Em 1870 foi pregador no Colégio das Irmãs de São José em Itu-SP.

No dia 21 de maio de 1871, por decreto imperial, Frei Vital de Oliveira foi nomeado Bispo de Olinda-PE, com a preconização dada pela Santa Sé aos 22 de dezembro daquele ano. De início, ele, humildemente, recusou a nomeação, mas recebeu uma carta do papa Pio IX, datada de 23 de janeiro de 1872, animando-o a aceitar o episcopado. Diante da palavra do Santo Padre, Frei Vital decidiu aceitar a nomeação, sendo sagrado Bispo na Catedral de São Paulo, por D. Pedro Maria de Lacerda, bispo do Rio de Janeiro, a 17 de março de 1872. Foi o primeiro bispo capuchinho do Brasil. Saiu de São Paulo para Pernambuco, a bordo do vapor Ceará, desembarcando no Recife aos 22 de maio daquele mesmo ano. Foi recebido com solene Te Deum na Igreja do Espírito Santo. Dois dias depois, a 24 de maio, entrou festivamente na cidade episcopal de Olinda e tomou posse na Sé de São Salvador, estando presente Dom Antônio de Macedo Costa, então bispo do Pará.

Simplicidade e Pobreza/ Libertação dos Escravos/ Acolhida

Tendo sido ordenado bispo, o Palácio da Soledade foi totalmente preparado para recebê-lo. A pedido dele, a residência episcopal foi preparada com muita simplicidade de conformidade com a sua condição de bispo franciscano-capuchinho. Nos seus aposentos particulares reinavam simplicidade e pobreza. Ao chegar, recusou logo os escravos postos a seu serviço, declarando que todos os cristãos são iguais diante de Deus. Por isso, os filhos do bispo não podem ser tratados como escravos. Recebia a todos com fidalguia no palácio decorado com arte e bom gosto. As portas de sua residência estavam sempre abertas a todos, ricos e pobres, que lhe desejassem falar. Apesar da sua juventude, muitos iam à procura dele para ouvir seus conselhos e orientações. Era um jovem frade simples, porém tinha ares de dignidade, um porte majestoso, que despertava a simpatia e o respeito de todos.

Orante, Piedoso e Penitente

Relatos de testemunhas da época rezam que ele dormia apenas algumas horas e era visto, alta noite, prostrado em oração e profunda meditação, de joelhos, na capela do palácio. Celebrava a eucaristia com muito fervor e piedade. Trazia continuamente um cilício e um cinto de ferro, e, quando sadio, não deixava o costume da disciplina três vezes por semana, seguindo o mais possível sua Regra franciscana. Seu leito foi muitas vezes uma simples esteira. Vê-se em Dom Vital, portanto, um jovem dedicado à oração, à intimidade com o Senhor e praticante da penitência, tendo como objetivo primordial a busca da santidade.

Episcopado/ Devoção/ Prisão/ Julgamento/ Morte

O episcopado de Dom Frei Vital foi marcado por tensões, sendo vivamente hostilizado pelos inimigos da Igreja e suas seitas secretas. Em 29 de maio de 1873, o papa Pio IX, pelo breve pontifício Quamquam dolores, louvou os bispos do Brasil, animando-os a combaterem as seitas inimigas. Dom Vital escreveu algumas cartas pastorais dirigidas aos seus sacerdotes e diocesanos. Tomou resoluções em defesa da fé e da Igreja e resistiu às tentativas do Governo Imperial para que desistisse de suas ações contrárias aos desmandos e interesses imperiais, o que lhe acarretou a prisão. Era o dia 02 de janeiro de 1874, às 15h, quando Dom Vital, revestido dos paramentos pontificais no Palácio da Soledade, foi preso e recolhido ao Arsenal da Marinha do Recife, sendo levado á frente de uma multidão que clamava pela sua liberdade. Dali foi conduzido para o Rio de Janeiro, a bordo da corveta “Recife”, passando antes pela Bahia, onde ali recebeu a visita do arcebispo primaz, Dom Manuel Joaquim da Silveira, o qual protestou contra o ato do governo. Chegando ao Rio de Janeiro no dia 13 de janeiro, ele foi recolhido ao Arsenal da Marinha. A 05 de fevereiro foi-lhe enviada uma carta contendo a acusação e dando-lhe um prazo de oito dias para uma resposta. No dia 10, Dom Vital respondeu simplesmente: Jesus autem tacebat. (Mt 26,63), ou seja, “Jesus permaneceu calado”.

No Rio de Janeiro, ele foi levado ao tribunal e julgado, sendo condenado no dia 21 de fevereiro de 1874 a quatro anos de prisão, com trabalhos forçados e custas, sendo essa pena comutada pelo Imperador, dias depois, para prisão simples na Fortaleza de São José, no Rio. Em carta destinada a João Alfredo, Conselheiro Imperial, Dom Vital mostra sua força de jovem consciente da missão que lhe foi confiada: Quando mesmo já fosse eu um bispo octogenário, tendo apenas alguns dias de vida, não trairia os deveres da minha missão; quanto mais tendo ainda talvez uma longa peregrinação a fazer. E numa resposta ao governo imperial, disse: A vontade de Deus… é que eu prossiga no desempenho de minha augusta missão: com sentimento e dor profunda outra resposta não posso dar ao ilustre e bondoso governo de S. M. o Imperador, senão que se deve obedecer mais a Deus do que aos homens. De outra feita, Dom Vital escreveu: Peçam-nos o sacrifício de nossos cômodos; peçam-nos o sacrifício de nossas faculdades, peçam-nos o sacrifício de nossa saúde; peçam-nos o sangue de nossas veias… Mas pelo santo amor de Deus não nos peçam o sacrifício de nossa consciência, porque nunca o faremos. ‘Sic nos Deus adjuvet’. Nunca!

A 04 de março de 1874,o papa Pio IX enviou um Breve à Diocese de Olinda, afirmando que o único crime de Dom Vital foi ter defendido a religião. Da prisão, ele consagrou a sua diocese ao Sagrado Coração de Jesus, no dia 12 de junho de 1874. E não chegou a cumprir totalmente a pena porque foi anistiado aos 17 de setembro de 1875 pelo Imperador, então pressionado pelos protestos do papa. Dom Vital suportou com muita serenidade os sofrimentos e provações, defendendo sempre os direitos da Igreja e o seu ministério episcopal.

Era muito devoto da Virgem Maria, comprazia-se em dizer que sua terna devoção à Nossa Senhora era fruto dos conselhos e exemplos de sua virtuosa mãe. Anistiado, o bispo heroico de Olinda viajou para a Europa a 04 de outubro de 1875, em romaria ao Santuário de Nossa Senhora de Lourdes, aproveitando para visitar vários conventos capuchinhos da França e da Itália. Chegou a Roma em 09 de novembro daquele ano, sendo recebido cinco vezes em audiência pelo papa Pio IX. No dia 02 de janeiro de 1876, recordando o segundo aniversário de sua prisão no Recife, Dom Vital celebrou a Santa Missa no cárcere Mamertino de Roma, onde São Pedro e São Paulo estiveram presos. Aos 25 de março de 1876, estando ele em Versalhes, na França, ordenou vários sacerdotes no convento dos capuchinhos. Voltando à Roma, recebeu de presente do papa um rico coxim bordado a ouro e um missal. Já doente, submeteu-se a um tratamento com águas sulfurosas. Voltando a Lourdes, na França, fez ali um retiro espiritual. Depois, visitou a Bélgica, passando, em seguida, por Paris e outras cidades francesas; em Bordéus, embarcou para o Brasil a 20 de setembro de 1876, chegando a Pernambuco aos 06 de outubro. Voltando à diocese de Olinda, continuou o seu apostolado, realizando visitas pastorais em várias paróquias e outros serviços, até março do ano seguinte, 1877, quando se sentiu doente, resolveu ir novamente à França em busca de tratamento. Antes, Dom Vital passou por Roma para pedir ao papa a exoneração do cargo episcopal, não sendo atendido. Em Paris, estava cuidando da saúde, mas o problema foi se agravando e aos 07 de junho de 1878, tendo visitado alguns amigos, Dom Vital ficou prostrado de vez. No dia 03 de julho, ele pediu para receber a Unção dos Enfermos.  Ao receber o Viático, disse: Perdoo de coração aos meus inimigos e ofereço a Deus o sacrifício da minha vida. Veio a falecer santamente no dia 04 de julho de 1878, às 23h15min., no convento capuchinho de Paris, aos 33 anos de idade, em consequência das provações porque passou e de um possível envenenamento misterioso, por parte dos inimigos da Igreja, membros de seitas secretas. Foi embalsamado e velado na igreja dos Capuchinhos. As solenes exéquias e sepultamento deram-se no dia 08 de julho. Monsenhor de Ségur, na oração fúnebre, por ocasião das exéquias, afirmou que Dom Vital morreu envenenado. Assim terminou esse triste episódio, que é denominado a “Questão Religiosa”. Com ela, foram dados os primeiros passos para a correção de graves obstáculos ao florescimento da vida da Igreja no Brasil. Foi o início de um despertar. Seus restos mortais foram exumados a 14 de junho de 1881, estando o corpo incorrupto, sendo depositado no dia 05 de julho de 1881 na Igreja da Penha do Recife. Tempos depois, houve nova exumação e o corpo tinha entrado em decomposição.

Dom Frei Vital Maria Gonçalves de Oliveira faleceu com fama de santidade. Em vista disso, aos 23 de janeiro de 1860, o arcebispo de Olinda e Recife, Dom Antônio de Almeida Morais Júnior, introduziu a Causa de Beatificação e Canonização. Os trabalhos ficaram parados por algum tempo e aos 14 de janeiro de 1992, Dom José Cardoso Sobrinho, OCarm., decretou a reabertura do processo de beatificação e canonização de Dom Vital. Os trabalhos foram concluídos e o processo enviado à Congregação da Causa dos Santos em Roma. No dia 27 de maio do corrente ano de 2012, o atual arcebispo de Olinda e Recife, Dom Antônio Fernando Saburido, OSB, entregou a condução da Causa de Dom Vital e do processo de beatificação e canonização dele aos frades capuchinhos da Província Nossa Senhora da Penha do Nordeste do Brasil.

 

Referências Bibliográficas

GONZAGUE, P. Louis de. Monseigneur Vital. Paris, 1912.

REIS, Antônio Manuel dos. O Bispo de Olinda perante a História. Recife: Imprensa Industrial, 1940.

GOMES, Perillo. Dom Vital. Rio de Janeiro: Pia Sociedade de São Paulo, 1944.

LIMA, Jorge de. Dom Vital. Rio de Janeiro: Agir, 1945.

CÂMARA CASCUDO, Luis da (org.). O Homem de Espanto. Natal: Galhardo, 1947.

CASTRO, Fernando Pedreira de. Dom Frei Vital. Petrópolis: Vozes, 1956.

VACARIA, Pe. Frei Artur de. Dom Vital: um grande paladino das liberdades da Igreja no Brasil. Caxias do Sul: Editora São Miguel, 1957.

MUELLER, Frei Bonifácio. No Roteiro de Dom Vital. Recife: Edições E.G.E, 1962.

OLÍVOLA, Fr. Félix de. D. Frei Vital Maria Gonçalves de Oliveira dos PP. Capuchinhos – Bispo de Olinda. Recife: Editora Gráfica, 1963.

OLÍVOLA, Fr. Félix de. Dom Vital: Um Grande Brasileiro. Recife: Vice-Postulação, 1967.

HUCKELMANN, Pe. Theodoro (Coord.). Dom Vital in memoriam. Recife: Vice-postulação, 1979.

FRANÇA, Frei Severino Batista de. Dom Vital, primeiro bispo capuchinho do Brasil: a sua figura profética. Dissertação para Licenciatura. Roma: Pontificio Ateneu “Antonianum”, 1985.

PEREIRA, Nilo. Dom Vital e a Questão Religiosa no Brasil. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1986.

ARAGÃO, José da Silva. Dom Vital em releitura. 2006.

Copyright © Direitos Reservados - Powered by WordPress - Desenvolvido por: Júlio Barros Design by: Petego